um dia talvez
Junho 27, 2010
- um dia talvez, queime as mãos que tocaram em mim.
- escavo por entre a pele
e apago as marcas que deixaste.
enquanto prendo o vómito na garganta,
que ameaça sair quando
me lembro de carícias mentirosas.
- um dia talvez, cosa a boca que me sussurrava ao ouvido.
- prendo a língua com agulhas
e deixo que o sangue te sufoque.
tapo os tímpanos com algodão doce
e finjo de surda para com as tuas
palavras enganosas.
és salgado, como lágrimas de raiva.
- um dia talvez, te parta a pila em dois pedaços.
- um deles, ofereço ao cão do teu vizinho.
o outro, ofereço à puta que mais
gostaste de foder.
ela vai agradecer-me, pois és daqueles
que dá o branco uma vez, para
depois encher a garganta da seguinte,
sem deixar marcas de uma
recordação amável. ela vai gostar
de saber onde andas.
- um dia talvez, corte os olhos que me enganavam no escuro.
- deito fora os óculos sujos
e cego-te com a faca com que cozinhavas.
fazia um refogado com cebola enquanto
os teus olhos castanhos choravam de agonia.
dava-os de comer à miúda
a quem olhaste com carinho falso
só para ela sentir o sabor do podre.
- um dia talvez, mate quem tiveste o prazer de tocar.
- só mesmo por diversão.
e para apagar o teu cheiro do mundo.
cavava-lhes a sepultura e
escrevia “zé” em todas as campas
que ia enfeitar com as tuas tripas
de monstro.
(27/06/10 – escrito num momento de raiva e mágoa. é para ti.)
queima-lhe os dedos; tira-lhe as mãos
Março 29, 2010
“gostaria que me fizesses um favor.”
olhou-me por entre os fios de cabelo negro, que se soltavam da sua cartola. estava sentado na poltrona como se fosse o seu trono; um rei maléfico à espera do próximo manjar dos deuses. o seu sorriso sádico tornou-se num gargalhada arrepiante, enquanto esfregava as luvas brancas de felicidade. era a típica cena, em que o “bad guy” de um desenho animado qualquer, se enchia de excitação só de pensar que iria fazer algo de mau.
“sei no que pensas. nunca pensei que voltarias até mim.”
desviei o olhar, as palavras desconfortáveis perfurando a minha barreira de indiferença. tinha vergonha de ali estar, a suplicar por algo que eu não era capaz de fazer. queria cumprir um capricho.
“fazes-me isso ou não?” voltei a perguntar.
continuou a sorrir-me e levantou-se do seu altar.
“porquê esse ódio?”
a sua pergunta não era algo ao qual já não estivesse habituada. típico de um maluco perguntar o porquê disto e daquilo.
“ele magoou-me.”
riu-se, claro. afinal tomava-me por uma fraca, que não aguentava a simples dor de uma rejeição. no entanto, sabia que eu nunca seria capaz de o fazer e eu sabia que ele nunca seria capaz de recusar. quando alguém nos oferece a oportunidade de fazer algo que gostamos, porquê dizer que não? estava a oferecer-lhe um corpo novo, fresco. uma delícia.
“pensava que o amavas, querida.”
estava próximo, mas mesmo assim não conseguia olhar para os seus olhos. não precisava de ser reconfortada e muito menos abraçar a pena que ele mostrava por mim. eu queria que ele o matasse, somente isso.
“e amo. daí o querer no chão.”
um dos seus dedos de cabedal tocou-me num fio de cabelo, enquanto gargalhadas pequeninas faziam de música, ao ambiente pesado que era falar em matar um pessoa. mas se havia alguém que podia acabar com a dor que trazia no peito… era ele.
“sabes, o amor é assim mesmo. um fogo que continua a arder mesmo depois de apagado. oh!, e como tu estás a arder, minha querida.”
nunca me levava a sério. nunca levava nada a sério! talvez por isso é que nunca levou a fina voz da consciência a sério.
“fazes-me isso?”
estava a ficar um pouco farta da conversa analítica. não precisava que um homicida me dissesse o que era o amor. eu sabia o que era o amor: algo que me sugava o espírito, entre as garras de um monstro cómico, disfarçado de um rapaz estranho. e cada vez que pensava nisso; cada vez que pensava na dor que me feria o coração – não deixava de pensar no quanto o amava e no quanto o queria morto.
“destruiu-me um pedaço de mim…”
“é normal que prefira o cartuxo. é rápido e eficiente. está lá quando ele precisa e não cheira a lágrimas, quando ele o atira para o chão. querida, é normal.”
impedi que as lágrimas me subissem aos olhos e tentei esquecer, que por momentos, eu me sentira mais importante que o tal “cartuxo”, e afinal, olha! perdi uma batalha que nem sequer comecei.
ele continuou a acariciar-me o cabelo, a sua tentativa reles de mostrar compaixão. eu não estava aqui à procura de apoio, caramba! queria ver o homem do cartuxo feito em pedacinhos, mais nada.
“promete-me uma coisa.”
riu-se.
“tudo o que quiseres, meu amor.”
olhei para ele.
“queima-lhe a ponta dos dedos e em seguida, tira-lhe as mãos.”
e pela primeira vez, ele ficou surpreendido com o meu pedido. durou pouco, porque passado um segundo o seu sorriso tornou-se numa montra de dentes amarelos. estava ainda mais interessado no que eu lhe estava a oferecer.
“porquê as mãos?”
envergonho-me do que disse a seguir, mas já não me restava mais nada senão a satisfação de o ver desaparecer.
“simples, ele não vive sem as mãos. sem as mãos não pega em cartuxo, nem pincel.”
e de novo aquela gargalhada sonora. senti-me repugnada, porque sabia que lá dentro, ele se sentia extremamente orgulhoso. e não era para menos. tinha acabado de lhe dizer para matar quem eu amava e ainda por cima, antes de o fazer, tirar-lhe tudo o que era.
“está bem, eu mato o rapaz.”
afastou-se e dirigiu-se ao armário. retirou o casaco vermelho e compôs a cartola.
“esperas algo em troca?” fiz-lhe a pergunta, apesar de saber que, só o prazer de matar alguém que me fizesse morrer por dentro era suficiente.
acabou de pintar os lábios de um vermelho vivo e respondeu-me num tom satisfeito.
“não, querida. hoje à noite vai ficar tudo tratado.”
ajeitou a gravata e pegou na bengala.
“como sei que o fizeste?”
com a mão na maçaneta, deu-me a única resposta que eu desejaria ouvir:
“eu trago-te um dedo.”
sorriu-me e saiu.
o meu coração ardeu por inteiro.
~
(29/03/10 – surreal e real ao mesmo tempo. estou a passar por essa fase sim.)
le fille et le photographe
Fevereiro 23, 2010
- il était une fois,
une jeune fille qui se promené dans la rue. c’était une journée ensoleillée et elle portait une tunique rouge et des jeans. soudain! une homme de taille petit et gros, comme un ballon, a sorti son appareille photo et a commencé à prendre des photos de cette fille.
il l’harcelait.
quelques heures après, cette fille continuait d’être harcelée par cet homme. il n’arrêtait pas de la prendre en photo.
elle n’en pouvait plus.
elle savait que le fin se approchait. tout ce qu’elle avait conquérait jusqu’à ce moment là était un vain.
et c’est comme ça que tout s’est terminé. elle a soupiré une dernière fois.
~
(era uma vez,
uma rapariga nova que passeava pela rua. o dia era de sol e ela vestia uma túnica vermelha, juntamente com umas calças de ganga. de repente! um homem pequeno e gordo, como um balão, sacou da sua camara fotográfica e começou a tirar fotos a esta mesma rapariga.
ele não a largava.
algumas horas depois, a rapariga continuava a ser molestada por este homem. ele não parava de lhe tirar fotografias.
ela não aguentava mais.
ela sabia que o fim estava próximo. tudo o que ela havia conquistado até àquele momento, tinha sido em vão.
e foi assim que tudo terminou. ela suspirou pela última vez.)
~
(22/02/10 – texto colaborativo numa aula de francês; colaboração de laura, joão, eugénia e vanessa. aprendo melhor francês assim)
l o v e
Fevereiro 16, 2010
- “it’s a scary kind of feeling”
when i want to talk
about love i always
get scared, deep down,
submerged
by plagued thoughts with nasty
bits of hurt.
when i make
you talk about love
you always give that
lopsided, small smile, mixing
worship and pain.
~
(10/05/2009 – simples, confuso. exactamente igual a nós, que já não somos nós)
dexter – CONCURSO
Janeiro 27, 2010
narrador: Dexter
~
Não me lembro de ter chorado no funeral. Não me lembro do ar me faltar nos pulmões, quando vi o seu corpo a ser posto debaixo da terra, por entre a multidão de olhares amargurados. Os seus filhos, agora mais meus que dela, enfeitavam o seu rosto com rosas e lágrimas doces. O preto dos fatos banhava-nos a todos de um perfume a morte, que nunca senti quando cortava as minhas vítimas aos pedaços.
Não me lembro de sentir um frio no peito quando taparam o caixão com a terra amarga, que iria aquecer a Rita no seu sono eterno. Não me lembro se mantive o rosto entristecido ou se já estava tão esgotado de manter a farsa do meu lado humano, que nem me dei ao trabalho de esconder o que realmente percorria o meu corpo naquele momento.
A Rita estava morta. Uma parte da vida que tão meticulosamente arranjei à minha volta, para poder aparentar um ser normal, fora-me tirado, arrancado. Ela estava morta e isso veio quebrar a normalidade, aquela normalidade pela qual eu ansiava. A normalidade que ajudava o meu passageiro sombrio a seguir a linha recta do vulgar, antes de tomar o atalho para o alívio que era matar alguém. E pensando bem, foi esse mesmo alívio que me trouxe aqui, ao futuro errado; ao invulgar da vida de fachada.
A morte da minha companheira cruzou ambas as vidas.
Naquele momento, enquanto as pessoas à minha volta dispersavam, não conseguia entender quem tomava controlo do meu corpo. Se o Dexter Morgan, analista de sangue, pai, irmão, viúvo ou se o Dexter Morgan, serial killer. A forma como a sua morte afectou ambas as minhas “personagens” era-me um total mistério. Nunca me tinha ocorrido o facto de que ter a Rita tanto tempo na minha vida, iria inevitavelmente alterar algo em mim. Em quais dos “mim’s” é que eu ainda não tinha percebido…
Estava destabilizado. Estou destabilizado. Não sei que posição tomar, não sei que rumo poderei agarrar de modo a que possa de novo distinguir tudo o que sou e não sou. Eu tinha um lugar. Eu pertencia a um lugar. E parte disso desapareceu. Deixei de ser marido. De um momento para o outro deixei de ser marido e se realmente me pudesse deixar levar pelos sentimentos que nunca se apoderaram do meu corpo, não me sentiria triste, revoltado, mas sim, culpado.
Matei a Rita.
E essa parte de mim, já não consegue esconder que foi ela. Sim, foi ela, ele, o passageiro. Matei a Rita ao tentar mantê-lo comigo. Matei a Rita ao tentar esconder tudo aquilo que sou realmente. Matei a Rita ao encarnar alguém que acreditava que pudesse ser eu. E por momentos, deixei-me levar pela fantasia que sim, que o Dexter Morgan, analista de sangue, pai, irmão e marido era eu. Fundi-me nessa personagem e o que aconteceu foi apenas um mero aviso, de que não me era permitido esquecê-lo. Não me posso esquecer do passageiro sombrio.
Quem dita as regras deste jogo, que é a minha vida?
Não sei.
Mas dei um passo em frente, aproximando-me da futura campa que seria adornada com o nome da minha falecida mulher e devagar, deixei que o ar entrasse nos pulmões do meu novo papel. E sim, aí já me lembro, pois foi aí, que me despedi realmente do velho eu. Foi aí, à beira do que já tinha acabado, que entrou o novo Dexter.
E como sei eu isto?
Algo molhado me tocou a bochecha e ao sentir de leve os meus dedos na minha face descobri que mais uma vez, inevitavelmente, me perdera na linha recta do normal e tinha tomado por um novo atalho desconhecido. Sim, porque o velho Dexter nunca tinha sentido o peso de uma lágrima.
~
(27/01/10 – para o concurso da FOX que termina amanhã. não exactamente o que teria escrito, mas tive de seguir as regras, inclusive de pontuação. e sim, faria mais sentido se pudesse ser a inglês e por isso custou-me um pouco a escrita na primeira pessoa em português, pois não consigo pensar como o Dexter, com palavras portuguesas. mas acho que não está assim tão mau… a ver, vamos)