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lembro-me, de quando escrevia cartas a amigos imaginários e assinava em pseudónimo. tinha vergonha de mim; vergonha do meu nome, que não tinha lugar no coração de ninguém.
- quando escrevia cartas, muitas vezes o destinatário era eu própria.
escrevia cartas às escondidas e as palavras cheiravam a uma mágoa, que nunca chegaria a lugar algum, sem ser de volta ao meu corpo.
escrevo agora esta carta, para tentar redigir em todas estas palavras escritas e desenhadas a caneta cor azul, a dor que me pesa no peito e me inunda os olhos de salgado-mar.
sente o peso das palavras; o amarfanhado da folha grossa de papel. sente a dor que se deixa fluir pelos meus dedos; a estranheza do sentimento que me abeta a alma. sente em toda esta enchente de palavras, o mais profundo ardor do meu coração
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onde o fogo queima as artérias e me deixa em cinzas.
sente o peso das palavras… a destruição,
o caos em que me puseste.
nestas palavras também está tudo o que tenho de mim. tudo o que posso e quero dar; tudo o que ainda me falta transmitir. o meu corpo e ser estão nestas palavras, cujo o medo crescente de serem entregues a ti, parece nunca desvanecer.
passa a mão pela folha. sente-me.
sente o amor que por ti cresce, lado a lado, de mão dada com a dor com que me enfeitas a pele. os meus olhos estão ilustrados nestas palavras:
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molhados e vermelhos.
as minhas mãos que tanto querem tocar as tuas, ferem-se aos poucos, queimando-se por entre o fogo que é a tua fúria por mim; a tua negligência ao apagares o cigarro.
volta a passar a mão pela folha cheia;
cheia de excessos e intermediários que apagam tudo o que tenho dentro de mim – tudo o que te quero oferecer. passa a mão por mim, meu amor, e sente como estou fria; a arder por dentro.
escrevo esta carta, fingindo e imaginando que tu a irás ler. irás ver-me e tocar-me. irás voltar e afagar-me os cabelos, limpando as minhas lágrimas com promessas não cumpridas. irás apagar o fogo da dor e abraçar-me no meio de todas estas palavras, que irão invadir o teu próprio corpo.
escrevo.
e alivio-me.
caio em mim.
por mais cartas que escreve, meu amor, nunca irão ser suficientes. estas palavras perderam todo o sentimento de esperança. por mais cartas que escreve, o destinatário que a irá receber irei sempre ser eu própria. pois tu, ou os outros… não entendem a minha escrita.
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(escrito numa folha de papel qualquer, numa noite de insónias, por volta do mês de Maio)
narrador: eu – laura
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já há muito tempo que não escrevo sobre ti. as palavras queimavam-me os dedos ao relembrar-me de tudo aquilo que eras e representas. é irónico, como agora me apetece queimar os dedos, pois prefiro-o a ter este fogo agonizante no meu coração. relembro-me das vezes que as tuas frases me ardiam no peito e me faziam deitar cedo e adormecer por entre pequenas gotas salgadas.
era perfeito.
uma dor calculada e absurda, que dava ao meu pobre coração vazio um cantar novo por entre as músicas mudas, que me suspiravas ao ouvido. era uma dor sempre presente à qual tu davas um apimentar de masoquismo merecedor. eu queria queimar-me junto a ti. eu amava queimar-me junto a ti.
era perfeito.
e agora, tenho uma nova dor que me arde e consome, deixando cinzas nos meus dedos. quando escrevo, já não é sobre ti – já não é sobre a ilusão reconfortante que me davas cada dia – já não é sobre a monotonia que inspiravas sobre mim. ao me queimares o espírito, protegias o meu coração. ao protegeres o meu coração, deixavas-me voltar para junto de ti. ao voltar para junto de ti, queimava os dedos.
era perfeito.
os meus dedos agora são cinzas; o meu corpo um cinzeiro. gostaria que me visses a ser feliz, para saberes que estou bem e que o que aprendi contigo, ainda está aqui dentro de mim. gostaria de mostrar textos felizes, que tocariam no coração de amantes e aumentariam o teu ego já tão grande. gostaria de chegar junto a ti, mostrar-te que sou forte – que todas as lições que me deste ainda estão escritas no caderno de apontamentos. gostaria de te poder dizer que sim, sim, sim, sim, já não sou a besta, o fantoche, a fraca que me pintavas ser.
era perfeito…
… se o pudesse fazer. mas não o faço, pois nada disso aconteceu e um sentimento de culpa abate-se sobre mim. sinto que se me olhasses agora, te voltaria a desiludir. terias de voltar a pegar em mim, gritar-me profanidades à cara e levantar-me da lama seca que me prende aqui. terias, de novo, de me queimar o espírito para me proteger o coração e mostrar-me novos vídeos de como ser algo intocável… como tu.
era perfeito.
quando me fizeste a pequena surpresa no meu dia de anos, já à algum tempo atrás e o meu coração, nessa altura tão cego por ti, se derreteu de novo naquela esperança que nunca davas, estavas de novo a proteger-me de um fogo sem fim. e agora, em que depositei a minha confiança em algo diferente, tendo a lembrar-me que sim, que eu te era importante. dizias-me que seria capaz, ‘tens pessoas que te amam’. e abandonaste a cena.
era perfeito.
volta a impor-te. volta a encher o meu ego frágil e fazer do meu discurso à prova de bala. a queimar-me os dedos e a apagar o fogo do meu coração. volta a dizer-me que sou besta e eu tentarei provar que não. volta a magoar-me, para superar a dor que parece nunca passar agora. volta a dizer-me que sou forte. volta a querer conhecer-me e a ajudar-me a tornar-me melhor. volta a querer ajudar-me. volta.
era perfeito.
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(19/06/09 – querido joão, ajuda-me.)
contava agora as pedras que ia apanhando da terra árida. um dia de calor; ventoso. contava as pedras como quem contava os segundos num relógio sem tempo. a espera não tinha qualquer significado e não fazia andar os ponteiros do relógio. então, ela contava as pedras. contava como quem esperava por alguém. contava como quem esperava por algo que jamais iria regressar. contava como quem esperava por algo que nunca esteve lá.
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os lençóis ainda estavam quentes. a luz do sol mal entrava pela persiana fechada. acordou e enroscou-se mais perto do corpo dele. o corpo dele ainda estava quente. de olhos fechados sorriu e agarrou-se ao seu peito. suspirou contente. lentamente um dos braços dele percorreu-lhe as costas nuas. ela suspirou contente. a mão dele ainda estava quente. estavam ambos muito quentes. feliz, ela olhou para os seus olhos – queria dizer o quanto gostava dele. os lençóis ainda estavam quentes. o corpo dele ainda estava quente. mão dele ainda estava quente. ambos ainda estavam muito quentes.
‘amo-te’ sussurrou.
o calor desapareceu.
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o telefone tremia-lhe na mão, enquanto respirava para o auscultador. não havia resposta do outro lado. o outro lado permanecia um vazio, no qual pingavam surtos de inconsciência voluntária. ela quase chorava pela dose que desta vez teria sido muito forte, não deixando resposta do outro lado. a mão continuava a tremer e ela respirava palavras para o auscultador; para o vazio que era o amor retribuído. continuava a não haver respostas do outro lado, sendo o facto penoso evidente: ele não tinha nada para dizer.
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(17/06/09 – comecei uma nova colecção de textos. ‘tirer la couture’ significa ‘pull the curtain back’. o conjunto de textos funciona como uma revelação de factos de uma relação entre um rapaz e uma rapariga. não é o meu melhor, mas não ando minimamente inspirada.)
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Tenho de sair do poço que são as tuas palavras. Das rédeas que são os teus gestos; da cela que são os teus olhos e do caixão que são as tuas mãos quentes… tão quentes. Quero voltar a respirar. Quero voltar a ver o céu azul e deixar-te na tua besta.
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(23/04/08 – palavras simples que fazem parte de um texto maior, dentro de um contexto ainda maior. estamos quase no fim.)
