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“tenho saudades.”
olhou-me. olhou-me com o seu olhar triste, tão triste. olhou-me de perto, como se fosse melhor. como se de perto, me retirasse mais da mágoa que se tornava desconhecida. nos seus olhos azuis via retratos antigos; filmes velhos. via-me a mim. via-o a ele. via-lhe o que já se tinha passado; o que nunca se tinha repetido. sentado ali, naquela escada de pedra, olhou-me.
era tão bonito. era mesmo bonito. tinha tantas saudades.
“tenho muitas saudades.”
voltei a repetir-me, como se ouvisse as palavras por duas vezes as fizessem mais reais, mais verdadeiras. mais credíveis. ele continuou a olhar-me com o seu olhar azul triste. era um azul tão triste… o mesmo azul a que eu prometi nunca magoar. nunca deixar. nunca esquecer. um azul tão meu. queria tanto que ele fosse só meu.
aproximei-me da sua figura magra. era pequeno. era novo. era frágil. queria tanto que ele fosse só meu.
aproximei-me e tomei-o nos braços. apertei o seu corpo contra o meu; o seu corpo tão pequeno. senti-o deixar-se suspirar contra o meu peito. senti as suas mãos quentes nas minhas costas; a sua retribuição do meu abraço tímido. afaguei-lhe o cabelo cinzento e ao perto conseguia ver as raízes castanhas. afaguei-lhe o cabelo e ouvi de perto a sua respiração cansada. senti-o. senti a sua forma triste.
queria tanto que ele fosse só meu.
“tenho tantas saudades tuas…”
disse-o de novo. outra vez.
gostava tanto dele.
gosto tanto dele. da sua timidez muda. gosto dos olhos azuis, especialmente quando me olham curiosos, tal e qual os de uma criança. quando me responde apenas com acenos de cabeça, envergonhado por entre fios de cabelo, que lhe tapam esses mesmos olhos. gosto quando aceita relutante um pacote de leite simples e uma goma já quase seca.
muitas vezes adormece cansado no meu colo. pega nas minhas mãos e observa-as ao sol. olha para o meu rosto e tenta decifrar tudo o que nele vê. queixa-se quando lhe limpo as feridas que ameaçam infectar; quando me preocupo demasiado e lhe compro roupa nova e bonita. caminha sempre perto de mim quando o levo a algum lado e dá-me a mão quando estamos sozinhos.
sorri-me. sorri tão pouco, mas sorri-me. e eu amo o seu sorriso. amo o sorriso quando eu própria esboço um sorriso e ele me sorri. quando as mãos pequenas me tomam o rosto e beijam levemente, quase a medo, os meus lábios. e sorrimos. sorrimos os dois, quando estamos sozinhos.
gostava tanto dele.
ele apoiou a cabeça no meu peito e soltou um grunhido doloroso. já estava habituada à sua constante falta de palavras. o medo de se prenunciar era tão difícil de esquecer. era tão pequeno. tão frágil. os meus braços voltaram a apertar ainda com mais força. tinha tantas saudades. passou tempo.
passou tempo.
passou tempo.
olhou-me de novo, erguendo a cabeça. estávamos tão perto. vi o azul, aquele azul triste. o meu azul. pestanas grossas, grandes, tão pretas. vi as sardas desvanecidas e a cicatriz na bochecha direita, perto dos lábios. lábios finos, de um rosa pálido. o nariz que nem era pequeno nem grande. vi-o ali tão perto de mim. era tão bonito.
uma das suas mãos tocou-me hesitante nos meus lábios. o seu olhar triste fixado na minha boca. senti a sua pele suave. respirava baixinho, rápido. queria sorrir-lhe. queria ver o seu sorriso. tentei esboçar um sorriso escasso que me foi travado pelos seus dedos nos meus lábios. o meu azul triste fixou-se agora nos meus próprios olhos. fiquei imóvel.
gostava tanto dele.
“tenho de voltar. tu já me esqueces.”
um grande sentimento de injustiça percorreu-me o peito. o meu coração rugiu. queria retorquir e dizer-lhe o quão errado ele estava, mas depressa se levantou e depressa me deixou. sempre o fizera. sempre aparecera e desaparecera do nada. quase nem o vi ir-se embora. desapareceu por completo. quase como se tivesse sido um fantasma. deixou-me. e agora em vez de um sentimento de injustiça, de novo fui invadida de saudade.
queria voltar a vê-lo. queria voltar a tê-lo nos braços e a perdoar-lhe cada pecado. ensinar-lhe cada traço de mim. e contar-lhe o mundo. cheirar o seu perfume e mergulhar no meu azul triste. vê-lo sorrir. perder-me no seu sorriso tímido. queria voltar a vê-lo.
tinha tantas saudades. queria tanto que ele fosse só meu.
queria tanto que ele existisse. queria tanto que ele fosse real.
que fosse só meu.
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(28/07/09 – o meu Cinza. só meu.)
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- não é algo que consiga explicar. não tem forma nem cor – muito menos definição ou compreensão. ela vai e volta – vai a mesma, volta diferente. e repete. e repete. e repete. repete porque quer; repete porque gosta. repete porque é louca. tal como eu sou louco – ela é louca.
não é algo para preencher o que já está preenchido – o que vai estar sempre preenchido. não é algo que seja palpável como amizade, ou amor. vai e volta. vai desamparada; uma carcaça vazia no tempo ansiando o impossível. volta sorridente, aproveitando o contentamento momentâneo mas que nunca chega a ser considerado real. e repete. e repete. e repete.
não procura conforto em palavras ou actos – um pouco talvez, não sei. não procura desabafos, liberdade ou até mesmo caridade; pena. não é algo que a faça viver. é algo que a faça pensar que vive. é algo que a esconde. é algo que precisa.
é louca – tal como eu sou louco.
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(15/10/08 – só porque não tenho nada novo. queria escrever algo novo. queria mesmo.)
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- mentes-me a sorrir.
mentes-me quando eu também estou a sorrir – estamos os dois a sorrir.
estamos os dois a sorrir, enquanto mentimos mais uma vez.
sei que estás a mentir, pois a verdade surge momentos depois, inesperada. mas estás a sorrir e eu também estou a sorrir.
continuo a sorrir – mentir – quando perguntas “estás bem?”
continuas a sorrir – mentir – quando dizes “o tempo passa.”
continuamos a sorrir – mentir – quando ambos nos lembramos de quando “éramos mais novos”; estamos os dois mais velhos.
e continuamos naquela troca de sorrisos surreal; naquela pequena bolha mentirosa. mas continuamos na mesma a sorrir. estamos os dois a sorrir.
mentimos-nos a sorrir. já passou tanto tempo.
esboço um último sorriso largo antes de sair e quando te olho de novo paraste de mentir – sorrir – e eu sigo-te o exemplo.
já passou tanto tempo.
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(29/01/09 – vai fazer 6 meses este pequeno conjunto de palavras. é tão bom voltar atrás por uns momentos.)
parte 1
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(…)
Estava agora perto do local onde iria ser a missa. Passou por familiares e amigos; parentes e conhecidos. Não falou a ninguém. Não tinha saudades dessa gente. O sapato preto fazia barulho nas pedras soltas à porta da igreja e atraía a atenção dos presentes. Hoje a dona Julieta era bonita. Passando por olhares confusos e reprovadores, chegou-se ao pé do neto, que estava todo bem vestido:
“Pedro.”
“Avó!”
Pedro agarrou-se de imediato à sua velha avó, envolvendo-a num abraço forte que raramente lhe dava. A dona Julieta retribuiu o abraço quente que raramente recebia. Agarrou o seu querido netinho com força e suspirou ao seu ouvido que se tinha esquecido da camisola de lã que estava a tricotar.
“É verde, a tua cor favorita.”
“Avó, por favor. Agora não. Eu não consigo pensar em nada.”
A dona Julieta por vezes sentia saudades daquele tempo antigo, em que o neto corria pela casa em tronco nu e fingia ser um pirata perdido no mar. Gostava de poder voltar a ver o neto a deliciar-se com os seus bolos de iogurte e a vestir as suas camisolas de lã grossa, durante o frio que era o Inverno. A dona Julieta gostava muito do Pedro.
“Como é que está? Conseguiu arranjar maneira de chegar cá?”
“Sim, meu filho. Estou bem.”
Neto e avó sorriram tristemente, trocando olhares tristes naquela tarde bonita mas ao mesmo tempo envolta numa tristeza inesperada. Ouviu-se o sino anunciando o início daquele evento mórbido e demasiado doloroso para qualquer pessoa que gostasse da mãe de Pedro; da filha da dona Julieta. Ainda rodeados de sorrisos tristes, neto e avó entraram de mãos dadas numa das milhares de casas de Deus. Caminharam lentamente até ao fundo da igreja, onde jazia o caixão que transportaria a mulher das suas vidas para debaixo da terra, onde permaneceria durante os próximos não sei quantos anos. Sempre de mãos dadas, sentaram-se bem perto da mulher mais linda do mundo.
A dona Julieta por vezes sentia saudades daquele tempo antigo, quando segurou pela primeira vez a filha nos braços e lhe deu um nome que gostava muito. A filha adorava brincar aos pais e às mães e estragava imensas bonecas. Chorava quando estava zangada e gritava alto quando se sentia injustiçada. Gostava muito de dar aulas aos peluches e investiu muito numa carreira no ensino; gostava muito de ensinar. A filha era bonita. A filha era linda. A filha tornou-se numa mulher linda; a mulher mais linda do mundo. E a dona Julieta gostava muito da sua filha. A dona Julieta tinha saudades dela. Uma lágrima caiu sobre o rosto da dona Julieta. Ela agarrou com força a mão de Pedro. A dona Julieta hoje queria ser bonita.
Pedro olhou para a sua avó e reparou na pequena lágrima que lhe percorria a face. Reparou no pó de arroz que escondia as rugas e no bâton encarnado; no rímel. Reparou no chapéu antigo e no casaco quentinho. Tinha crescido devido ao sapato preto de salto. Reparou na blusa que nunca tinha visto antes e na saia que a mãe dele lhe tinha dado no dia da mãe. Tinha na mão a sua carteira para ocasiões especiais. Pedro olhou para a sua avó. Olhou para a sua avó e viu a sua mãe. A sua mãe, a mulher mais linda do mundo. Pedro olhou para a sua avó e disse:
“Estás bonita hoje, avó.”
A dona Julieta sorriu por entre as lágrimas e sentiu-se, como a filha, a mulher mais linda do mundo.
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(20/07/09 – fim.)
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A dona Julieta por vezes tinha saudades daquele tempo antigo, em que rodava a saia por entre homens jovens, aspirantes a poetas, que se entretinham nos cafés pequenos, durante as noites quentes de verão. Noites em que fugia sorrateiramente pela janela rasteira da casa – ou quartel, como gostava de lhe chamar – e escapava aos sermões já gastos do pai. A dona Julieta tinha saudades dos namoros invisíveis a olhos alheios e das tardes dos cochichos entre amigas perto do rio, que naquele tempo antigo ainda não tinha sofrido o efeito da poluição. A dona Julieta tinha saudades. Muitas saudades. A dona Julieta tinha saudades do marido, que morrera ainda novo, quando a pneumonia atingiu o seu peito em força, obrigando os pulmões viciados em tabaco, a parar. A dona Julieta tinha saudades do neto, que não via há meses. Meses esses que passou em casa a tricotar camisolinhas já demasiado pequenas para o seu querido netinho, já todo crescido. Saudades do genro austero e rígido, cujo a guerra o tinha deixado a sonhar com cadáveres banhados em sangue frio. A dona Julieta tinha saudades da filha, que morrera há duas noites. A dona Julieta era velha. A dona Julieta era muito velha.
E hoje a dona Julieta olhou-se pela primeira vez, em muito tempo ao espelho e vestiu o seu melhor fato. Vestiu a meia incolor e a saia castanha até ao joelho. Enfiou cabeça abaixo a blusa azul escuro, de uma seda rara – uma prenda que o marido lhe dera por dois anos de casamento. Calçou o sapato preto, com um pouco de salto que sempre a fizera mais alta do que o seu metro e sessenta. Um casaco quente, de uma cor escura que ela tinha sempre dificuldade em identificar e o chapéu antigo que a mãe lhe dera nos anos, já faz muito tempo. A dona Julieta olhou-se pela primeira vez, em muito tempo ao espelho e pegou no bâton vermelho escuro; pegou no rimél já seco e no pó de arroz já quase no fim. Olhou as rugas e tentou disfarçar os vincos que a relembravam constantemente que era velha. Hoje a dona Julieta queria ir bonita. A dona Julieta queria ser bonita.
Viu as horas. Era quase tempo de se ir despedir. Deu uma última olhada pela vestimenta espalhafatosa e um último olhar pela face idosa. Estava pronta. Pegou na pequena carteira que guardava para as ocasiões especiais e saiu porta fora. Não se preocupou em trancar a velha porta de madeira escura; ninguém na pequena aldeia se atrevia a algo. Desceu as escadas de mármore branco e dirigiu-se à paragem de autocarro mais próxima. O genro não a viria buscar – estava demasiado traumatizado. Nem o próprio neto. Lembrou-se de repente, que se tinha esquecido da camisola de lã que andava a tricotar. Teria de a dar ao seu querido netinho noutra altura. A dona Julieta caminhava confiante. Hoje a dona Julieta era bonita. As pedras da calçada não faziam diferença no sapato preto. A dona Julieta sabia andar muito bem. A dona Julieta tinha classe. Chegou à paragem no mesmo momento em que o autocarro se aproximava vagarosamente da casa dos Silva – o senhor Silva bebia muito e batia na mulher; pelo menos era o que se comentava.
O autocarro parou para deixar entrar a dona Julieta que retirava um pequeno porta-moedas da sua carteira especial. A dona Julieta não era de se queixar do preço das coisas. Sempre fora ensinada a tomar bem conta do seu dinheiro – que não era pouco. O pai da dona Julieta fora dono de um banco. O pai da dona Julieta fora um homem poderoso e influente. O pai da dona Julieta tivera três filhas e isso fora o seu grande desgosto. O pai da dona Julieta morreu muito velho. E agora a dona Julieta ficara com tudo – as irmãs haviam morrido ainda novas.
Sentou-se num dos primeiros bancos perto do condutor. O único banco diferente dos outros, pois estava de frente para a traseira do autocarro. A dona Julieta hoje ia ser diferente. Ela hoje queria ser admirada; a dona Julieta estava bonita.
O autocarro não encheu naquela tarde. Fizera grande parte de viagem praticamente vazio, à excepção da dona Julieta e um grupo de estudantes barulhentos. A dona Julieta ia vendo a paisagem a surgir pelas costas e admirava a beleza que era a serra onde morava. Já tinha visto aqueles montes tanta vez que lhes perdera a conta e sabia cada árvore de cor. Percorria muita vez aquele caminho a pé, quando ainda as pernas eram firmes e belas; quando ainda tinha vontade de mostrar uma perna sem varizes e pele rugosa. Já mais crescida percorria muita vez aquele caminho em carros de amantes variados, que a levavam a passear pelas belas paisagens que já conhecia desde pequena. Quando casou, o marido levava-a muita vez por aquele caminho para irem ver a filha e a sua família. Agora, já velha, sem marido nem filha, nem amantes nem pernas bonitas, percorria aquele caminho num autocarro quase vazio e de novo apreciava a paisagem que já vira imensas vezes. A dona Julieta hoje queria ser bonita. A dona Julieta tinha saudades.
Uns vinte minutos de viagem e a dona Julieta parou perto da igreja. Saiu confiante do autocarro e de novo sentiu o sapato preto na calçada de pedra. Olhou o céu sem nuvens e sentiu a temperatura alta. Estava calor hoje. A dona Julieta pensou que hoje era um dia bonito e sentiu saudades. Respirou fundo e começou a caminhar em direcção a uma das mais de milhares casas de Deus. A dona Julieta não acreditava em Deus, mas começou a caminhar confiante. Ao longe viu o neto todo bem vestido. Viu o genro todo desmedido. Viu a prima do Alberto e o tio Fernando. Viu a sobrinha do Joaquim e a irmã de Carlos. Viu uma data de gente conhecida, com quem já não falava há anos. Continuou caminhar em direcção à igreja e a cada passo sentia-se mais bonita. Mais confiante. Hoje a dona Julieta queria ser bonita.
(…)
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(20/07/09 – está em duas partes. escrito para o livro a meias que ando a escrever e inspirado numa velha senhora que observei numa viagem de autocarro)
