why the fuck are you looking at me?
Julho 16, 2009
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levaste tampa? perdeste alguém que te era querido? falhaste concretizar o maior sonho da tua vida? sentes-te revoltado? em suma, doí-te o peito? pois bem!
aqui está um plano emergência de como suportares melhor um coração em chamas, já bastante partido, espezinhado e esmagado, sem utilizares métodos extremistas como partires toda a casa ou pegares numa pistola e mandares um tiro na tola. vamos por pontos:
a) primeiro, alguma coisa te fez doer esse mesmo órgão do teu corpo. tens de ter alguma razão para que sintas essa dor maléfica. mesmo que te digam “o coração é apenas um órgão” sabes perfeitamente que te dói. consegues sentir essa picada debaixo do teu peito; essa dor agoniante dentro de ti. se tens uma razão para tal, é nessa razão que te vais concentrar. não deixes para depois.
b) pensa então nessa mesma razão. respira fundo. isto vai doer a sério. é um acto quase masoquista, mas vai compensar no fim. se ainda te encontras a meio desse mesmo acto, que te faz sofrer tanto, espera até o acabares. se libertares toda a raiva e angústia durante esses escassos momentos, não te vai ajudar em nada. apenas vai piorar a situação e tornar toda a experiência posterior um pouco mais agonizante. por isso, vais esperar até terminares.
c) ok, terminaste o acto. e agora tens uma dor miudinha que te chega ao cérebro e te infiltra o pensamento. gostarias de pensar noutra coisa, mas vais aperceber-te que não consegues. começas a olhar para o nada e a pensar continuamente naquilo que vais sentindo, até essa dor miudinha começar a aumentar e aumentar e lágrimas caírem pelo teu rosto. chegou a hora do acto masoquista (e não! não falo em mutilações, dar murros a paredes ou qualquer outra coisa que faça ainda pior ao teu bem estar físico).
d) aproveita essa dor miudinha e ela que te arraste para a cama. se estiveres na rua, espera até chegares a casa ou encontra um recanto no qual possas gritar e exasperar sem que ninguém te aborreça ou pense que te estás a matar. aproveita essa mesma dor crescente, leva-a no teu peito até te deitares confortavelmente na cama. agarra numa almofada, ou peluche, etc. vai ajudar.
e) ok, já estas na cama. o teu corpo agora parece-te mole, sem força, mas em breve já vai espevitar. com as lágrimas ainda a banharem-te o rosto e essa dor miudinha irritante no teu peito, o normal seria ignorares tudo isso. quanto mais depressa deitares isto tudo fora, melhor. não queres que doa mais, logo, ignoras a sensação e esqueces. wrong. isso irá fazer com que mais tarde, ainda aí esteja a dor miudinha. o melhor, melhor é deitar tudo logo cá para fora. chegar ao pico da dor. o acto masoquista. a dor insuportável.
f) começa a pensar na razão pelo que estás assim. procura nos confins da tua memória perguntas aos ‘porquês, como, onde, quais, quando’. procura respostas. refuta-as com outras perguntas e novas respostas. pensa que fizeste assim, mas mesmo tendo feito isso, aconteceu assado. concentra-te no doer. faz doer mais. quando pensas que já chega, que já nem queres pensar porque tal fulano ou fulana te fez isso, continua até chegares à verdadeira razão e só conseguires rebobinar tudo à frente dos teus olhos. chega ao pico da dor.
g) vai parecer-te tudo tipo filme. primeiro a respiração torna-se ofegante. de seguida, fechas os olhos como se quisesses bloquear esse rewind doloroso. tentas tapar os ouvidos, porque te lembras de palavras ditas que te feriam os tímpanos. a boca solta grunhidos e quando dás por ti, já estás a gritar bem alto, do fundo da tua garganta; do fundo do teu coração. mas não pares. continua. pensa mais. mentaliza. rebobina tudo de novo e recomeça.
h) estás na fase do doí demais. mas é mesmo para ser assim. durante este curto espaço de tempo (acredita que é curto, mesmo que pareça o contrário) vai parecer-te o fim do mundo. quando vês tudo de novo à tua frente e sentes tudo de novo, a dor chega ao ponto de se tornar quase insuportável. não como se estivesses a morrer ou a levar porrada. é uma dor diferente, que ao contrário das outras não pára de repente. leva o seu tempo a esmorecer, mesmo quando já pensas que acabou. eu ainda sinto a tal picada no meu peito, mesmo depois de ter feito tal coisa, mas acredita que alivia.
i) fiquei de joelhos na cama, com a cabeça enterrada na almofada, agarrada a um peluche velho, a babar-me para tudo quanto era sítio e a gritar. mesmo com os olhos fechados via tudo o que a minha mente me transmitia e eu lhe pedia que transmitisse. ficava sem ar muitas vezes e os meus pulmões doíam. assim como o meu coração, que passou de dor psicológica a dor física. comecei a ter palpitações e ainda agora me dói a respirar. tenho noção de que tive naquele estado durante pouco tempo, mas lá pareciam eternidades. foi horrível. não conseguia ver o meu futuro.
j) vais sentir o mesmo. tentas pensar no que vais fazer a seguir e o teu cérebro simplesmente não te vai conseguir dar resposta, pois está demasiado concentrado a tentar aliviar-te no estado em que te puseste. não consegues pensar com clareza. vai parecer-te o fim. e gritas mais um pouco até estares quase a perder a voz e a necessidade de respirar levar a melhor de ti. estás num inferno. mas acredita, é melhor assim. continua.
k) e depois um click! o teu corpo já se sente cansado e isso obriga o teu cérebro a comandar ele agora as operações. falta-te a voz e falham-te os braços. as lágrimas secam. e cais na cama de novo, de rastos. e sabes o que sentes a seguir? … nada. ficas durante escassos segundos inundado de nada. um nada sem nada. dura escassos segundos mas é nada. não sentes nada. sentes tanto nada que até vais sentir falta da dor que sentias à pouco. parece estúpido mas é verdade. estás rodeado de nada.
l) descansa um pouco. respira. o nada em breve vai desaparecer, como já tinha dito. a dor não passa logo. mas já atingiste o seu pico. já sofreste o que tinhas a sofrer. já está. já passou. respira fundo. olha para o tecto. já está. já passou. por hoje já passou. e mesmo que venha de novo algo, já não vais conseguir senti-lo com a mesma intensidade. já sabes o que é o pico da dor. as chamas. um coração a partir-se. já o sentiste. já está. já passou.
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(16/07/09 – já me sinto melhor. mesmo assim dói muito. já nem sei se o quero ver à frente.)