queima-lhe os dedos; tira-lhe as mãos
Março 29, 2010
“gostaria que me fizesses um favor.”
olhou-me por entre os fios de cabelo negro, que se soltavam da sua cartola. estava sentado na poltrona como se fosse o seu trono; um rei maléfico à espera do próximo manjar dos deuses. o seu sorriso sádico tornou-se num gargalhada arrepiante, enquanto esfregava as luvas brancas de felicidade. era a típica cena, em que o “bad guy” de um desenho animado qualquer, se enchia de excitação só de pensar que iria fazer algo de mau.
“sei no que pensas. nunca pensei que voltarias até mim.”
desviei o olhar, as palavras desconfortáveis perfurando a minha barreira de indiferença. tinha vergonha de ali estar, a suplicar por algo que eu não era capaz de fazer. queria cumprir um capricho.
“fazes-me isso ou não?” voltei a perguntar.
continuou a sorrir-me e levantou-se do seu altar.
“porquê esse ódio?”
a sua pergunta não era algo ao qual já não estivesse habituada. típico de um maluco perguntar o porquê disto e daquilo.
“ele magoou-me.”
riu-se, claro. afinal tomava-me por uma fraca, que não aguentava a simples dor de uma rejeição. no entanto, sabia que eu nunca seria capaz de o fazer e eu sabia que ele nunca seria capaz de recusar. quando alguém nos oferece a oportunidade de fazer algo que gostamos, porquê dizer que não? estava a oferecer-lhe um corpo novo, fresco. uma delícia.
“pensava que o amavas, querida.”
estava próximo, mas mesmo assim não conseguia olhar para os seus olhos. não precisava de ser reconfortada e muito menos abraçar a pena que ele mostrava por mim. eu queria que ele o matasse, somente isso.
“e amo. daí o querer no chão.”
um dos seus dedos de cabedal tocou-me num fio de cabelo, enquanto gargalhadas pequeninas faziam de música, ao ambiente pesado que era falar em matar um pessoa. mas se havia alguém que podia acabar com a dor que trazia no peito… era ele.
“sabes, o amor é assim mesmo. um fogo que continua a arder mesmo depois de apagado. oh!, e como tu estás a arder, minha querida.”
nunca me levava a sério. nunca levava nada a sério! talvez por isso é que nunca levou a fina voz da consciência a sério.
“fazes-me isso?”
estava a ficar um pouco farta da conversa analítica. não precisava que um homicida me dissesse o que era o amor. eu sabia o que era o amor: algo que me sugava o espírito, entre as garras de um monstro cómico, disfarçado de um rapaz estranho. e cada vez que pensava nisso; cada vez que pensava na dor que me feria o coração – não deixava de pensar no quanto o amava e no quanto o queria morto.
“destruiu-me um pedaço de mim…”
“é normal que prefira o cartuxo. é rápido e eficiente. está lá quando ele precisa e não cheira a lágrimas, quando ele o atira para o chão. querida, é normal.”
impedi que as lágrimas me subissem aos olhos e tentei esquecer, que por momentos, eu me sentira mais importante que o tal “cartuxo”, e afinal, olha! perdi uma batalha que nem sequer comecei.
ele continuou a acariciar-me o cabelo, a sua tentativa reles de mostrar compaixão. eu não estava aqui à procura de apoio, caramba! queria ver o homem do cartuxo feito em pedacinhos, mais nada.
“promete-me uma coisa.”
riu-se.
“tudo o que quiseres, meu amor.”
olhei para ele.
“queima-lhe a ponta dos dedos e em seguida, tira-lhe as mãos.”
e pela primeira vez, ele ficou surpreendido com o meu pedido. durou pouco, porque passado um segundo o seu sorriso tornou-se numa montra de dentes amarelos. estava ainda mais interessado no que eu lhe estava a oferecer.
“porquê as mãos?”
envergonho-me do que disse a seguir, mas já não me restava mais nada senão a satisfação de o ver desaparecer.
“simples, ele não vive sem as mãos. sem as mãos não pega em cartuxo, nem pincel.”
e de novo aquela gargalhada sonora. senti-me repugnada, porque sabia que lá dentro, ele se sentia extremamente orgulhoso. e não era para menos. tinha acabado de lhe dizer para matar quem eu amava e ainda por cima, antes de o fazer, tirar-lhe tudo o que era.
“está bem, eu mato o rapaz.”
afastou-se e dirigiu-se ao armário. retirou o casaco vermelho e compôs a cartola.
“esperas algo em troca?” fiz-lhe a pergunta, apesar de saber que, só o prazer de matar alguém que me fizesse morrer por dentro era suficiente.
acabou de pintar os lábios de um vermelho vivo e respondeu-me num tom satisfeito.
“não, querida. hoje à noite vai ficar tudo tratado.”
ajeitou a gravata e pegou na bengala.
“como sei que o fizeste?”
com a mão na maçaneta, deu-me a única resposta que eu desejaria ouvir:
“eu trago-te um dedo.”
sorriu-me e saiu.
o meu coração ardeu por inteiro.
~
(29/03/10 – surreal e real ao mesmo tempo. estou a passar por essa fase sim.)
Por um fase dessas também passo. É virtude da alma, acho.
Gostei daqui.Voltarei.