um dia talvez
Junho 27, 2010
- um dia talvez, queime as mãos que tocaram em mim.
- escavo por entre a pele
e apago as marcas que deixaste.
enquanto prendo o vómito na garganta,
que ameaça sair quando
me lembro de carícias mentirosas.
- um dia talvez, cosa a boca que me sussurrava ao ouvido.
- prendo a língua com agulhas
e deixo que o sangue te sufoque.
tapo os tímpanos com algodão doce
e finjo de surda para com as tuas
palavras enganosas.
és salgado, como lágrimas de raiva.
- um dia talvez, te parta a pila em dois pedaços.
- um deles, ofereço ao cão do teu vizinho.
o outro, ofereço à puta que mais
gostaste de foder.
ela vai agradecer-me, pois és daqueles
que dá o branco uma vez, para
depois encher a garganta da seguinte,
sem deixar marcas de uma
recordação amável. ela vai gostar
de saber onde andas.
- um dia talvez, corte os olhos que me enganavam no escuro.
- deito fora os óculos sujos
e cego-te com a faca com que cozinhavas.
fazia um refogado com cebola enquanto
os teus olhos castanhos choravam de agonia.
dava-os de comer à miúda
a quem olhaste com carinho falso
só para ela sentir o sabor do podre.
- um dia talvez, mate quem tiveste o prazer de tocar.
- só mesmo por diversão.
e para apagar o teu cheiro do mundo.
cavava-lhes a sepultura e
escrevia “zé” em todas as campas
que ia enfeitar com as tuas tripas
de monstro.
(27/06/10 – escrito num momento de raiva e mágoa. é para ti.)