You are currently browsing the category archive for the 'textos: non-fiction.' category.
- sinto falta do leito do seu colo.
quando perdurava na noite, aquele abraço quente, próximo do fogo da lareira, quando ela me trazia para o sono do fim do dia e murmurava carinho por entre os dedos que afagavam suavemente o meu cabelo.
eram abraços ternos.
os quais uma criança desconhece o significado; abraços que se esfumaram por entre o fumo de um escape de automóvel que fugia do quotidiano insuportável que era a sua vida.
inspirava-me na minha escrita jovem e ensinava-me as sílabas da história mostrando-me os dotes de ser mulher forte, incapacitando o meu poder de argumentação frágil.
invejo o seu poder de persuasão e as memórias de uma casa farta de pessoas; imito-lhe a capacidade do olhar feroz e o sarcasmo idêntico que corre em ambas as veias; choro no seu ombro que enfrenta o arremesso hostil das minhas palavras injustas.
gostaria que transpirasse orgulho pela filha que carregou no ventre.
se conseguisse,
soletrar-lhe-ia, todos os dias, um novo verbo de afecto, por entre as mágoas doentes dos confrontos diários e juntava-me a ela, perto de uma lareira quente, afagando-lhe as madeixas loiras e segredando entre dentes:
- amo-te mãe.
~
(25/10/09 – o texto mais recente que escrevi. a universidade rouba-me tempo e personalidade.)
~
- És a pedra no meu sapato; És o vento num cabelo arranjado; És a mossa num carro usado; És o erro ortográfico no livro novo; És a agulha num palheiro; És as rugas num rosto quarenteno; És a merda que pisamos pelo caminho; És a unha que encrava no dedo mindinho; És o cheiro enjoativo num hospital; És a fonte horrível num quintal; És a mosca num dia quente de Verão; És pastilha debaixo da sapatilha; És o vírus no computador; És a porcaria enfiada num contentor; És a bola de futebol furada; És a razão do palitar; És a negativa num exame; És a chuva-molha-parvos num dia de sol; És a doença que nos põe de cama; És o hálito que desespera por pastilha-de-mentol; És a celulite nos nossos corpos; És a mancha de nêspera na alcatifa; És a acne que tapa os poros; És o lobo-mau no Capuchinho Vermelho; És quem ataca o cordeirinho; És o desgaste na madeira; És a ferrugem no ferro; És essa merda toda, que me consome inteira.
~
(10/04/08 – estive a ler textos antigos sobre ti e recordei-te. estás tão longe.)
~
sabes uma coisa?
aposto que não sabes. aposto que não sabes que coisa é essa de que te quero falar. e não é só falar, de falar. é explicar, descrever, sentir, tudo ao mesmo tempo. esse tudo arrebatado em palavras gastas que farto de repetir e repetir e repetir.
sabes, é nestas noites frias que mais sinto a sua falta. a falta do calor – do seu calor. tenho frio e agarro-me com força ao cobertor imaginando ser os seus braços leves e quentes. quando ele me toma nos braços despidos e me escalda o corpo. é sempre tão quente; abafado. e aqui está frio e sinto a sua falta. falta do suor presente nos lençóis e da sua respiração irregular no meu pescoço.
gosto quando me olha, com aquelas duas pequenas bolas castanhas escondidas por detrás dos óculos quase, sempre sujos. quero-te falar disso, descrever-te exactamente o que sinto, mas quase me vejo incapaz. não há palavras suficientes que ditem as emoções que me percorrem o peito, naquele momento em que ele me olha e sorri. sorri. sorri-me contente. sorri-me contente e feliz. e o meu peito enche, enche, enche até quase me caírem lágrimas pelo rosto sorridente.
toca-me ao de leve no cabelo, como se este fosse um pedaço de vidro frágil que derrete ao passar dos seus dedos mornos. encosto-me à sua figura magra e deixo-me levar pelo conforto e carinho, que raramente recebo vindo de outrem. só ele. só me entrego assim a ele. não me perguntes porquê, porque eu também não sei porque só me entrego assim a ele. não sei. mas ele passa a mão no meu cabelo e esqueço tudo lá fora; fora da pequena bola de vidro derretida.
ele não é fácil, sabes? é teimoso. e orgulhoso. e de vez em quando mostra-se insensível, ferindo-me com atitudes bruscas e magoando-me com palavras agressivas. é imaturo ao ponto de actuar muito como uma criança. vejo nele o tanto de uma criança. tem muito de criança. não tem muita paciência e irrita-se com facilidade.
amua. e posso dizer-te que antes, não suportava os amuos. um amuo de um rapaz a quem não lhe deram o chocolate. e posso dizer-te que agora, já um sorriso me banha os lábios quando aprecio a sua postura amuada; as suas feições bonitas escondidas por detrás de um beiço. e posso dizer-te que agora o abraço entre o aborrecimento e lhe beijo a testa enrugada pela apatia.
às vezes ainda tenho medo, sabes? o amor mete medo. tenho medo quando me grita exaltado ou quando me esquece por entre as tardes com os amigos. tenho medo quando age sem pensar – é impulsivo por natureza. e ao mesmo tempo, pensa muito. nunca conheci uma cabeça que pensasse tanto. tenho medo quando esconde o que sente e me deixa no escuro a tentar adivinhar. às vezes ainda tenho medo, sabes? quando estou numa noite fria e não o tenho por perto.
ele desenha. há tanto tempo que não me faz um desenho. gosto de o ver desenhar, de ver as mãos ágeis a nadar pelo papel, traçando riscos sem fim, num mar infinito. gosto de observar os traços a nascerem no papel; a nascerem das mesmas mãos que me tocam no escuro e me provocam arrepios na espinha. há tanto tempo que não me faz um desenho. que não me pinta um sentimento e uma emoção. e ao mesmo tempo, tento eu desenhar com todas estas palavras a saudade de ver um esboço seu.
choro demasiado. a minha garrafinha que guarda as emoções é tão pequenina. é tão pequenina. tão pequenina e ao mesmo tempo, tento enchê-la até ao cimo, mostrando por tudo o que sou, aquilo que lhe quero ser. gostava de lhe ser mais. gostava de lhe ser tudo. gostava de lhe ser o que ele me é a mim. gostava de lhe mostrar o que ele me mostra a mim. de ensinar o que me foi ensinado. mas choro demasiado, por vezes assustando-o ou assolando-o de sentimentos que nem eu própria consigo descrever. quero que ele perceba o que eu não percebo.
ele faz-me feliz, sabes? quando me cozinha pratos saudáveis ou me ajuda num bolo de chocolate. quando me abraça com força, prometendo o impossível. especialmente quando atura aquilo que eu raramente mostro. faz-me feliz quando no mais simples dos momentos me explora a alma e me deixa entrar no seu espírito. ele faz-me feliz, sabes?
somos o contrário. e ao mesmo tempo, o comum. ele, uma calma irresponsável, que não padece à minha pressa incontrolável. e ao mesmo tempo, somos os dois impacientes, capazes de nos deixarmos dominar por impulsos errados, que levam a tremores de terra avassaladores e destroem a calma que ambos queremos. ele, o amuo de dias infinitos, que não responde ao meu bipolarismo de minutos. e ao mesmo tempo, sofremos ambos das derradeiras mudanças de humor sem razão, que exercemos um no outro, libertando a raiva e frustração.
gosto quando fazemos as pazes e não me decido a olhar para o futuro. quando a ignorância me cega os olhos e me liberta naquele montante de gargalhadas que é estar junto da sua imagem; da sua voz e dos seus olhos. deito-me junto dele, ouvindo as batidas latentes do seu coração, tentando decifrar os pensamentos que se escondem por entre frases monossilábicas – como se fosse um puzzle difícil, com peças que não acabam.
ele é à sua maneira. uma maneira com a qual nem sempre lido bem, mas uma maneira com a qual me relaciono com a minha própria maneira. ele à sua maneira ama-me. sei que me ama. sinto que me ama. sinto-o quando me abraça e me beija levemente, proferindo palavras enroladas, que para ele são difíceis de atirar. ele é à sua maneira. e ele ama-me nos abraços e nas mãos quentes de um dia de verão frio.
ele diz-se só meu, sabes? e às vezes, permaneço instantes não contados a olhar para ele, enquanto ambos transpiramos a tal calma desejada, e…
e…
não consigo descrever a felicidade que enche a garrafinha pequenina, que ameaça jorrar salgado pelos meus olhos abaixo. não consigo dizer-te o quanto ele é para mim. não consigo dizer-te o quanto eu já lhe entreguei: o meu corpo: a minha alma: eu. entreguei-me a ele, sabias? por completo. medricas, a medo, entreguei-me. e parte de mim, pertence-lhe. e sempre lhe vai pertencer a ele, e só a ele. parte do que sou, é para sempre dele.
é tão demais. é tudo tão demais. é tudo tão grande dentro de mim, quando penso no seu nome. quando careço da sua voz e do seu toque. quando vejo recordações do seu passado ciumento ou quando lhe escrevo cartas que não conseguem conter tudo o que sinto e penso. é tão demais. é tudo tão demais. demasiado grande. tudo tão cheio. um amor tão cheio. um amor -
-um amor como nunca senti.
sabes uma coisa?
acho que estou apaixonada.
e aposto que não sabes, não sabes quem é. mas estou. e estou. e estou muito apaixonada e decidi contar-to, explicar-to, descrever-to e tentar fazer com que sintas parte do grande, cheio, tudo, que sinto. e voltarei a repetir-to, repetir-to, repetir-to para não me afogar no mesmo cheio, tudo, grande.
sabes uma coisa?
estou apaixonada por um rapaz chamado Simão. vem conhecê-lo, que eu não o consigo descrever, pois ele é tudo e não consigo por tanto em palavras.
~
(06/08/09 – fazemos quatro meses hoje e estou longe de ti, enquanto tu me esqueces por entre zangas despropositadas)
~
- mentes-me a sorrir.
mentes-me quando eu também estou a sorrir – estamos os dois a sorrir.
estamos os dois a sorrir, enquanto mentimos mais uma vez.
sei que estás a mentir, pois a verdade surge momentos depois, inesperada. mas estás a sorrir e eu também estou a sorrir.
continuo a sorrir – mentir – quando perguntas “estás bem?”
continuas a sorrir – mentir – quando dizes “o tempo passa.”
continuamos a sorrir – mentir – quando ambos nos lembramos de quando “éramos mais novos”; estamos os dois mais velhos.
e continuamos naquela troca de sorrisos surreal; naquela pequena bolha mentirosa. mas continuamos na mesma a sorrir. estamos os dois a sorrir.
mentimos-nos a sorrir. já passou tanto tempo.
esboço um último sorriso largo antes de sair e quando te olho de novo paraste de mentir – sorrir – e eu sigo-te o exemplo.
já passou tanto tempo.
~
(29/01/09 – vai fazer 6 meses este pequeno conjunto de palavras. é tão bom voltar atrás por uns momentos.)
sinto que a dor se repete, de novo e de novo, como um rodopio de espinhos que – se cravam na carne arrancando pedaços desmedidos, e voltam ao inicio como uma corda sem fim, presa pelas pontas desfiadas. estou farta de cair sempre pelo mesmo poço sem fundo, que me prende no escuro da mais variada dor, onde a vaga luz da esperança se apaga, como um pôr-do-sol abandonado por entre os pinheiros da montanha. luto uma batalha perdida, numa guerra que apenas tem um vencedor, inundada de sangue derramado em vão, por algo por que espero num tempo sem relógio, onde a mágoa não tem limites; onde a desilusão me assola o espírito infinito. a pequena chama a que me agarro, apaga-se facilmente com o vento da maldade e da falta de escrúpulos, deitando-me ao chão vezes e vezes sem conta, até sangrar do nariz e perder-me nas lágrimas da almofada de um sono insómnico. sinto que as palavras se repetem, pois já as escrevi numa linha continua que volta sempre ao inicio de cada frase longa e intacta, que enchem os meus textos de uma tristeza secante e ingénua. sinto que a dor se repete, de novo e de novo, como um rodopio de espinhos que -
(08/07/09)
